domingo, 29 de outubro de 2017

Multidões na solidão

A solidão invadiu as multidões e preencheu de vazio os corações.
Os indivíduos, egoístas dentro de sí, perderam o olhar exterior e procuram versões de sí mesmos em espelho de ilusões.

Grupos que embora se pareçam, não passam de réplicas de várias solidões, buscando aceitação de outros milhões.
Hora buscam estar a sós, hora querem viver num parque de diversões, hora vivem perdidos no passado, hora vivem espreitando o futuro, estão contando as horas, estão como estamos todos nós.

Vivemos em busca de utilidade e descartamos todos que não nos servem mais, abandonamos, deixamos no caminho, esquecemos raízes e origens, buscamos um topo e um horizonte, o auge do sucesso, deixamos tanta coisa pra trás, ignoramos gestos, sentimentos, endurecemos com as decepções, um mundo com cada vez mais vilões, nossas fraquezas são cada vez mais evidentes e penetram todas as proteções.

Nas ruas, dentro das casas mais luxuosas, embaixo dos viadutos, no relento da cidade, pedindo moedas ou na cobertura dos prédios, estamos sentindo o mesmo frio, estamos com a mesma fome, vivemos o mesmo desconforto, sentimos a mesma dor, morremos das mesmas doenças, sofremos a mesma violência.

Estamos todos sós, estamos esperando alguém que olhe por nós, alguém que ouça nossas histórias, alguém que compartilhe suas lições, alguém que seja capaz de nos amar, nos tirando dessa guerra sem trégua por posições.
Do mais alto executivo ao poeta da esquina, estamos discursando a mais absoluta solidão, quando buscamos lá fora a vida que há muito tempo perdemos em nós.

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