quarta-feira, 13 de março de 2019

A exigência

Todas as grandes exigências e decepções deste mundo estão em exigir o amor perfeito de pessoas imperfeitas, sem que se percebam as próprias imperfeições. Exige-se do outro sem que se reflita sobre o eu, julga a qualidade pelo que se pode ser útil em suas habilidades, enobrece sua beleza mediante seus bens materiais, a conduta é marcada pelo objeto de interesse.

Não se pode haver frustração em amores que são produzidos em pacotes de microondas, que em 3 minutos estão prontos para matar a fome, satisfazem o corpo no momento, mas que de fato não nutrem o coração. Só se engana quem quer, quem nunca se enveredou nas torrentes de rios caldalosos ou quem já se embriagou na expectativa surreal de encontrar um diamante sem ter cavado nas profundezas de uma mina, porque viveu de garimpo em garimpo apenas sobrevivendo de despojos da miséria humana.

Nossa alma já esteve em guerra e só quem presenciou a ressureição de um coração dilapidado pelas falsas expectativas sabe que ressurgir das cinzas não é tarefa fácil, o choro talvez não dure uma noite, mas várias até que o sol volte a nascer, talvez o tempo não pare para esperar o sorriso, mas orgulho nenhum leva a altivez de caráter, pois o que nos corrompe não é a espera pelo bem ideal, mas a ausência total da benevolência que esperamos quando julgamos a entrada de quem bate a nossa porta, sem que avaliemos a realidade de quem estamos sendo naquele instante.

De todas as grandes futilidades inúteis dessa vida, a concepção do amor encontrado nas facilidades da noite é a mentira mais entorpecente da nossa geração, a nossa descartabilidade é uma faca de dois gumes que ao mesmo tempo que torna inútil quem não satisfaz aos nossos interesses nos inviabiliza diante da maior parte das escolhas alheias. Ao mesmo passo que conquistamos e dominamos, subjugamos e matamos o outro com medo de que nos façam o mesmo e de tão superficiais, os relacionamentos se tornam tão distantes que ao menor sinal de rejeição tratamos de rejeitar primeiro porque não aprendemos a agir diferente.

Uma taça de vinho, um perfume, uma música, um jantar, uma conquista, um corpo incólume, uma noite na cama, um só encontro e fim! No dia seguinte são dois desconhecidos e fotos que provam que a guerra dos sexos foi vencida, a gasolina foi abastecida, o carro foi lavado, a chave está novamente na porta, pronta para dirigirmos até a gasolina acabar novamente e encontrarmos um novo posto que atenda às necessidades por mais uma noite, até que se chegue em algum lugar desconhecido, onde não haja sinal da própria existência, para num copo de álcool abandonar a realidade poética da morte que se teme chegar.

A reflexão da madrugada traz o desespero diário de pessoas que amam até a curva seguinte, porque não sabendo o que o resto da estrada reserva, rotas e planos de fuga são construídos, o pé no acelerador é o retrato do medo que se tem em observar ao redor e ver que que o fantasma da perda o acompanha na própria sombra.

Um dos piores males da humanidade é a falta do amor, todo o restante é apenas um reflexo do quão estamos cegos, andando em um labirinto universal procurando por algo que esteve sempre dentro de nós, mas que deixamos de reconhecer porque não quisemos ouvir o que nossos antepassados tanto nos diziam.

Jogamos fora o que não funciona como a gente quer, porque se tornou fácil encontrar produtos no mercado, nos tornamos consumistas e canibais, o que não nos disseram é que nessa busca desenfreada nos tornamos obsoletos para o outro e para nós mesmos e na lixeira dos artigos de luxo nos olhamos nos espelhos da alma e enxergamos com dor que não somos mais quem queríamos ser, abraçamos o invisível e aceitamos que não temos nada a oferecer, nos tornamos cópias de um mundo perdido, desvanecidos na loucura, morrendo sozinhos sem a realização do prazer ter sido vivida.

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