domingo, 17 de maio de 2020

Barro Barreto

Barro Barreto

Barreto
Curioso nome
Nem sempre pensamos o que representa
Vamos ao significado?
Nascido em local caracterizado pela existência do barro
Viemos do pó da terra
O pó hoje é asfalto
Eu vim de lá
Próximo de uma fábrica de tecidos
Quase na divisa com Niterói
Ah, que saudade!
Da casa casa onde de início morei
Só lembro da minha foto de cabeceira
Me mudei, para outros lugares
Neves, Parada 40, Paraíso.
Mas o barro do Barreto ficou em mim.
Exatamente numa esquina
Na rua Câmara Coutinho
Eu estou lá até hoje
Sonho com cada detalhe
Da casa da minha avó
Se eu fosse arquiteto
Faria uma casa igual
Em mínimos detalhes
Para entrar novamente lá
Lembrar de quando subia pelas escadas
Via lá no alto
Uma cadela pretinha
E esse era o nome dela
Do alto do terraço eu via a Guanabara e a BR.
Lá do portão eu me apaixonava
Maiaras e Laíses viviam em minha imaginação
Do alto dos meus 8 anos
Eu sonhava com um olhar ou um sorriso
Doce ilusão, mas o que marcou
Foram os chás de carqueja
O cafezinho da tarde e o pão com queijo
Não pode faltar a farofa!
Do outro lado da rua, meu pediatra
Cristeo, o doutor, me salvava das minhas febres
Era auxílio nas horas incertas
Toda a vizinhança reunida
Várias fotos e lembranças
A igrejinha na esquina
Presbiteriana, bem simples.
Lembro dos lanchinhos
Dos peixes desenhados na parede
E da canção marcante ao fundo.

Barreto
O barro está no coração
Saudosismo de bons tempos
Das casas e pessoas simples
Da história que já era história faz tanto tempo
Que eu nem ousava me questionar
Cenários quase bucólicos
Pessoas e passos no chão
O jardim de infância logo ali
"Escolinha Criativa"
Ao lado da igreja batista de Neves
Hoje é só uma casa qualquer
A memória viva sempre me faz pensar
Quantas vidas passaram por esse lugar.
De mãos dadas com meus pais
Saía a correr desembestado
Uma curva e estava lá novamente
No sobrado de pedras
Num bairro feito de barro.

Hoje eu sonho sem parar
Com todas as nuances desse lugar
Sim, se eu pudesse meu universo seria lá
Vendo o rio desaguar no mar
Ouvindo ao longe o som constante
De um piano que se avizinhava
De passar pelos colegas de infância
Que já se mudaram a tempos de lá
Andar 3 ruas paralelas
E parar numa casa cheia de relógios
Onde o que se quebrava era logo consertado
E eu era um contente desbravador
Brincando de sonhar
Com o tic tac que soava sem parar.

Meu Barro, meu Barreto
Guardo-te no coração
Se eu esqueci de algo
Me conceda o perdão
Que um dia eu volte a entrar
Por aquele cinzento portão
De mundos imaginários
Dos cômodos que abrigavam meus tios
Meus primos
Quase irmãos.

Histórias contadas e vividas
O horto
O posto de saúde imenso
As vacinas
O barbeiro pronto a cortar meu cabelo
A fábrica da Coca-Cola
Que hoje abriga um conjunto de prédios
Sempre que eu vejo minha avó
O barro que mora em mim
Saúda o barro que mora nela
Mesmo no alto do 10° andar
É para o chão que eu estou a olhar
Para o passado recontado a cada gesto
A cada palavra
A cada minuto
Tudo transpira o ar de 30 ou 60 anos atrás
Quando a terra era sem forma e vazia
E do barro fomos feitos
Barreto.

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