sábado, 16 de maio de 2020

Saudades quarentenais

Saudade da presencialidade
Dos toques e abraços
Do aconchego inocente
De cafunés aleatórios
De abraços com terceiras intenções
Dos beijos no canto da boca
Da boa e velha paquera real
De segurar as mãos olhando nos olhos
Do conforto de um bom colo
Das conversas olhando o teto
Do braço dormente ao acordar
De apelidos e implicâncias
De fazer planos sem parar
Olhar para uma casa qualquer
E sonhar com filhos e cachorros
Saudade de olhar na janela e ver online
Só para perguntar como foi seu dia
Depois de já termos nos despedido
Ver um filme abraçados
Jogar pipoca um no outro
Comer brigadeiro na panela
Aprender um idioma imaginário
Criar um mundo só nosso
Dentro de um aquário.
Do sentir o cheiro do perfume
Brincar de pique pega
Escrever cartinha de amor
Fazer surpresas infinitas
Até das briguinhas bobas
Ciuminhos bestas
Risadas sem motivo
Olhares sacanas
De fingir que éramos desconhecidos
E nos conquistarmos novamente
Saudade do que não vivi
Ou do que já nem me lembro mais
Saudade de ter saudade
De algumas vidas atrás
Ou de um futuro hipotético
Onde existamos um nós
Que desate os nós
Dessa ausêncialidade
Fria e seca
Quase mórbida
Mortal e viral
Onde não nos conhecemos mais
Saudades quarentenais.


Saudades

S
        A
 U
D
            A
D
     E
                     S

Sem tempo definido para acabar
Que apenas continua
E escorre
Como as palavras em desordem
Descendo em uma ampulheta.

Saudade!

Pedro Garrido

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