sábado, 3 de abril de 2021

O sabor das coisas

 


Doce, salgado, azedo, amargo... Sabores muito comuns na nossa vida e que nem sempre a gente dá a devida atenção. O cheiro de café quente de manhã que faz a gente acordar num estalar de dedos pra comer um pãozinho com presunto e queijo, o sabor do chocolate entre os dedos na nossa tenra infância, o suco de maracujá com gostinho de roça, os sabores que vão dando saudade, ditando experiências e nos cercando de lembranças.

Há quem diga que existe um tipo de sabor chamado umami, uma mistura de todos em um, ou algo que não é nem um nem outro, é estranho, mas dizem que é só mais um sabor agradável, quem saberá definir o que é ou não agradável ao paladar alheio?

O paladar refinado ou não, vamos sentir os mesmos sabores em tudo, mas a experiência é única e subjetiva, isso não pode ser tirado do ser humano. Mas pensemos, e se de uma hora para outra todos os prazeres mais saborosos humanos fossem retirados do nosso paladar? Como seria o nosso café da manhã? Como seria aquela sessão de cinema onde o primeiro beijo inocente aconteceu? Como seria a sensação de andar no parque sem aquela pipoca doce toda grudada de manteiga?

Às vezes é como se a vida perdesse sentido, perder todos os sabores é uma agressão a nossa memória, é parte de nós se perdendo em um vazio de imagens e formas desconexas, e é aí que olhamos e percebemos que a mesma coisa acontece quando a tristeza ou sentimentos ruins tiram nossa vontade de estar junto, tudo perde o sabor, metaforicamente falando e não adianta comer, beber, brindar, jogar conversa fora, tudo tem a mesma aparência disforme, sem qualquer beleza que nós faça querer admirar um lugar, uma pessoa ou um objeto como se fosse um alimento.

Um dos sintomas da Covid é a perda do paladar e do olfato, mas não é preciso ter a doença para perceber que muitas vezes deixamos de lado o sabor das coisas, deixamos e desvalorizamos aquilo que não parece saboroso aos nossos olhos, e a dificuldade com que avançamos na vida profissional, ou em qualquer outro aspecto que nos sobrevenha, faz com que olhemos nossos avanços mais significativos como uma substância disforme e estranha, como se não merecessemos sentir o sabor de uma vitória ou o cheiro de café que nos leva a sentir o dia de outra maneira, ou nos privamos de lambuzar nossos dedos com chocolate, porque tudo é tão cinza que não nos damos o prazer de desfrutar de um sabor novo.

Na iminência ou na possibilidade de perdermos os sentidos, parece que damos mais valor a eles, como se fossemos degustadores de vinho, querendo aproveitar o máximo daquela sensação até que ela se esvaia em um gole, uma mordida, um sorriso, um choro... A sensação de perder algum desses sentidos nos leva a querer sentí-los como se nunca tívessemos sentido nada igual. O doce fica mais doce, o ácido arde na língua, o salgado se prova mais saboroso, e vamos degustando cada sabor da vida como se a própria vida tivesse por se findar. Queremos viver e sentir tudo como se nunca tívessemos vivido ou sentido antes, o sabor das coisas nunca mais é igual a antes quando se acredita que pode ser perdido a qualquer momento, o sabor da vida parece amargo, mas a iminência de perder até o amargo nos faz valorizar até o jiló que tanto odiamos, talvez você não, mas muitos odeiam, e mesmo não tendo perdido meus sentidos, tiro para mim esse momento de reflexão.

É preciso sentir todos os sentidos para se sentir vivo, é preciso saber lidar com todos os sabores, mesmo o mais amargo se não quiser viver uma vida em parte, é preciso dar valor ao doce momentâneo de um perfume ou de uma bala, é preciso sentir os sabores nos cheiros, nas notas musicais, no raio de sol que nos ilumina mais um dia, é preciso sentir os sabores das coisas que tocam nossa boca e das que tocam nossa alma, o céu da boca pode ser um limite para o paladar, mas o céu não é um limite para quem ousa ter sonhos e deseja realizá-los. 

Que a gente não precise perder o que é nosso para valorizar o que sempre tivemos de bom e possamos assim como o degustador sente o sabor de forma refinada, possamos compreender melhor o sabor das nossas emoções e de cada conquista que é posta em nossa mesa como um café da manhã.

Pedro Garrido


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