segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Pela metade

Pessoas curadas curam pessoas, curam porque sabem como chegaram até lá e como saíram do estado que estiveram. Pessoas machucadas, no máximo trocam curativos, talvez até evitem que a ferida aumente, mas não são capazes de curar outra pessoa da mesma dor, elas não sabem sair do labirinto em que se encontram. É como se um guia turístico te levasse à metade do caminho proposto porque nunca conseguiu chegar ao fim do caminho, ou porque nunca terminou o curso e não foi devidamente capacitado, ou porque tem medo de desbravar um novo caminho.

Enquanto você não se curar, você estará tão perdido quanto o guia turístico que não sabe por onde anda, o historiador que não conhece a própria história, o médico que nunca curou a própria doença.

Não adianta levar o mapa do tesouro se não souber reconhecer o "x" da questão, não adianta ter olhos e não querer enxergar as pedras no caminho, não adianta estar em um hospital e não querer ser curado da própria mazela, não adianta fugir de si mesmo nos braços de alguém que também já fugiu tanto que não reconhece mesmo o calor de um abraço de verdade.

Só o amor cura de verdade, toda cura pela metade não passa de ilusão, não passa de comprimido de placebo, não passa de um atestado falso de saúde, não passa de uma trilha pela zona confortável e conhecida da alma, não passa de um quadro na parede de um lugar que nunca tentou descobrir se era um quadro ou uma janela, um diploma de uma vida de mentira, uma nota de dinheiro pela metade.

Uma cura pela metade nunca será cura, no máximo alívio, no mínimo uma loucura.

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