quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Transbordamento

Seja capaz de se bastar!

Quando somos suficientes em nós mesmos transbordamos então na vida de outra pessoa e a outra pessoa, sendo suficiente em si mesma, também irá transbordar em nós, não por necessidade, interesse ou barganha, mas como uma dança em que não se sabe os passos, mas se dança sem medo de errar enquanto a música toca ao fundo, um rito de agradecimento a eternidade pela completude ainda que finita daquele momento.

Não é o transbordamento o fato importante, mas o fato da suficiência ser tão certa que somos capazes de enxergar que estar ao lado de alguém não é uma carência para suprir uma parte que falta, mas sim a certeza de que finalmente estamos bem o suficiente para dividirmos a vida com alguém que chega, temos todas as partes necessárias para dividir sem que falte nenhuma peça física ou emocional. Quando somos plenos na dança, dançamos sem nos preocuparmos com o fim da música, estamos seguros que a música durará tempo suficiente para cumprirmos os passos necessários e o fim da música não é necessariamente o fim da dança, porque sabemos que somos capazes de continuar mesmo que falte o tom, mesmo que falte a música, mesmo que falte tudo, porque a dança não está fora de nós, mas dentro.

A motivação que vem de dentro não se importa com o que vem de fora, podemos dançar em meio as pedras e espinhos e mesmo assim não nos machucarmos, porque quando sabemos o que temos em nós, sabemos que o que é externo não nos pertence, seja o julgamento alheio, a dureza dos corações, os espinhos ao nosso redor, nada disso é nosso. O mundo pode estar em guerra, se você está em paz, a certeza pela qual se luta já é uma vitória.

Nos bastamos nos dias de guerra porque a guerra não é nossa, mas somos capazes de lutar se necessário, sabendo que não morreremos no fronte quando sabemos como nos defender, quando sabemos as armas que temos e conhecemos o terreno pelo qual estamos lutando.

Parece loucura dançar em meio a guerra, mas tem muita gente armada até os dentes, que não dança porque se deixou levar pelas paixões momentâneas e esqueceu de si mesmo no meio do caminho, não amou de verdade, apenas sucumbiu ao impulso, foi ferido em batalhas e não soube mais declarar paz a si mesmo, a guerra não era mais contra os inimigos reais, mas imaginária com inimigos invisíveis, a música se tornou fúnebre e a única dança é a que espera o fim da marcha.

Mesmo para o ferido de morte há esperança de vida, mesmo para aquele que se entregou a surdez há uma dança o esperando, ao que se esvaziou a oportunidade de se encher, a paz é real, a música há de tocar, o rio ainda há de transbordar. A esperança brota nos corações mais secos, as lágrimas choradas são capazes de tornar reais recomeços inesperados.

Nenhum comentário:

Postar um comentário