Muitos de nós dizemos estar curados das nossas mazelas e traumas, sorrimos, brincamos e aconselhamos os outros segundo o nosso testemunho de superação, mas será que realmente superamos? Parece que construímos um personagem para nós daquilo que queríamos ser, e lá no fundo do eu interior a personalidade verdadeira está em constante conflito tentando atestar a confiabilidade do que o personagem diz ao mesmo tempo que trabalha intensamente para que as fraquezas e dores escondidas não venham a tona.
Tudo é uma questão de maturidade; quanto mais amadurecemos, mais somos capazes de nós libertarmos dos personagens, mais temos a capacidade de lidar com nossas frustrações e de exorcizarmos nossos fantasmas. Se algo precisa vir à tona, que venha antes que se torne perigoso, se uma dor precisa ser sentida, que se sinta antes que o mundo desmorone.
Não precisamos nos esforçar para demonstrar felicidade se não estivermos felizes, não precisamos maquiar nossas imagens para fazer com que pessoas se sintam felizes por nós, nada disso importa. Mais vale um mundo interior bem cuidado que vários mundos se tornando cópias de um mundo que está a beira de um desastre. Há uma grande diferença entre a vida existente em uma floresta na beira de um rio e um deserto onde cactos subsistem ao sabor de chuvas passageiras. Desertos emocionais não podem sustentar florestas, rios caudalosos não se mantém sem chuvas permanentes.
Como podemos curar se não estivermos curados? Como podemos guiar em uma travessia se nós não chegamos ao outro lado? Como podemos gerar uma floresta se não tivermos nutrientes para as sementes? Como levar o rio até o mar se não cuidarmos da nascente? Enquanto o que existir em nós for apenas um personagem, todo o resto não terá validade.
Somente admitindo fraquezas e fracassos é que seremos fortes e teremos sucesso, só admitindo a existência de incapacidades é que nos tornaremos capazes, nos dando o direito de ter sensações e sentimentos, não tendo medo de chorar nem de pedir ajuda quando necessário.
Talvez a nossa intenção seja boa, de querer liderar, fazer o bem, ajudar ao próximo, mas de nada vai adiantar se não formos tratados naquilo que nos enfraquece, se mantivermos como estratégia de defesa os espinhos que afastam de nós pessoas que
precisam do conforto de um abraço.
Que possamos reconhecer que sempre precisamos de ajuda uns dos outros, que nunca um personagem tome conta de uma personalidade por medo de expor uma fraqueza, todos nós temos nossas limitações e só podemos encarar de verdade o mundo quando nosso mundo se encontrar em estabilidade. Só quando sabemos quem somos é que podemos levar alguém a conhecer a si mesmo e ao mundo que desejamos apresentar.
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