sábado, 3 de agosto de 2019

Rei Leão

Hakuna Matata pode ser lindo de dizer no filme, mas seus personagens com a música e a fala só trazem a tona algo que apesar de parecer banal, olhando mais profundamente se percebe que o que eles vivem ou cantam é uma fuga de si mesmo, uma fuga dos problemas, uma busca do esquecimento de traumas do passado e a tentativa frustrada de viver cada dia como se tudo ao redor não fosse importante ou não influenciasse o futuro de todos ao redor deles.

Hakuna Matata é esquecer os problemas já que você não os pode enfrentar ou tentar resolver, olhar para quem você é e acreditar que pode ser qualquer outra coisa, menos quem você nasceu para ser. Você, no caso o personagem, não se importa mais com o futuro, pois o importante é o agora, é viver os prazeres de comer insetos escondidos em árvores enquanto foge do destino inoportuno ao qual todos terão de enfrentar.

Ao encontrarem Simba, Timão e Pumba não salvam de fato a vida de alguém com o interesse em fazer o bem ou ajudar quem precisa, eles salvam pois encontram a oportunidade de receber proteção de alguém que foi destinado para ser rei, mas que por acreditar que foi culpado da morte de seu pai, acaba com sua auto-estima baixa, sendo recrutado para viver a filosofia dos seus companheiros, escondendo boa parte da essência de quem deveria ser, para esquecer tudo que lhe tinha acabado de acontecer.

Um futuro rei que pela inexperiência da vida foi vítima de um golpe maligno e acabou abrindo mão de quem era para ser usado por outros seres que até então não sabiam muito bem quem eram, apenas queriam esquecer os problemas e se manterem vivos. Assim ele cresce, comendo insetos, esquecendo sua essência, perdido no meio de tantos outros animais, com sua subjetividade dormente no meio de sua confusão psicológica.

Só depois de um momento de conflito interno, alguns acontecimentos o revelam sua verdadeira identidade e Simba finalmente vê em seu reflexo quem realmente ele nasceu para ser. Ele é a imagem do pai!!! Um forte simbolismo que até para nós acaba passando despercebido, mas se a gente para pra pensar, muitos de nós temos esquecido a imagem de quem nós somos. Somos a imagem de nosso pai somos herdeiros de um reinado e por causa do que dizem sobre nós, muitas vezes fugimos da nossa realidade e nos sujeitando a comer insetos no meio de tantos outros que reconhecem e sabem do nosso potencial, mas não nos dizem porque nossa presença ali os conforta de alguma maneira, já que eles sabem que não representamos ameaça naquele estado de esquecimento.

Simba volta para recuperar seu reino, pois aos poucos  faz as pazes com o seu passado e consegue compreender que a culpa não foi dele, mas ainda precisa enfrentar os problemas para recuperar o trono perdido, precisa vencer o vilão, precisa ser tão forte quanto ele foi destinado a ser. Fazer as pazes com o passado não é o suficiente, esquecer o que aconteceu e se livrar da dor não se dá dessa forma, é necessário que o verdadeiro vilão seja vencido, é necessário que se quebre o controle emocional sobre quem se foi subjugado, então é necessário se impor como rei de si mesmo, antes de ser senhor das terras do reino. É só depois do confronto com as mágoas, as revoltas, as falsas crenças, traição e traumas, que a chuva interior passa, o fogo queima as áreas que até então estavam mortificadas e a vida se renova por completo.

Pode parecer só um filme, mas O Rei Leão é uma lição que parece passar despercebida para nós quando crianças, mas quando olhamos com um olhar mais adulto, percebemos que Timão e Pumba agiram apenas em interesse próprio, que Scar não era muito diferente deles e que Simba é um retrato vivo de muita gente que passou por situações bem parecidas na vida real e um dia precisaram sair do Hakuna Matata para reassumirem seus lugares de destino. Aquelas terras escuras, jamais vá lá! Onde é lugar de morte não pode reinar a vida, a vida só pode acontecer onde a luz é capaz de alcançar, se não fôssemos imagem e semelhança do rei, aquela terra inóspita seríamos nós, hienas no meio de meros ossos secos, famintos de algo que não se sabe o que é pois nada preenche o vazio, sombra de uma realidade decrepta da qual temos que fugir desde o início dos nossos dias.

Precisamos assumir nossa posição no reino!

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